Se o seu encontro com o artista te aborrece, é quase sempre porque você está abordando isso com a mentalidade errada. Os três erros mais comuns são esperar “se divertir”, tentar fazer algo útil ou produtivo e carregar o celular. O encontro não é para te entreter: é para alimentar sua curiosidade e prestar atenção. O tédio geralmente é uma resistência disfarçada, e não uma prova de que o plano falhou.
O tédio quase nunca é culpa do plano
Quando alguém diz ‘meu encontro foi chato’, o natural é pensar que escolheu a atividade errada. Mas o encontro com o artista Não é um passeio de lazer que deve “dar certo”. É uma prática de atenção. E o tédio, nesse contexto, costuma dizer mais sobre o seu estado mental do que sobre o lugar que você frequentou.
Cameron observou algo curioso: a resistência do artista bloqueado é muito inteligente. Nem sempre soa como 'eu não quero ir'. Às vezes aparece depois, tipo ‘que perda de tempo, que chato’, para te convencer a não fazer de novo. O tédio pode literalmente ser o seu bloqueio de resposta.
O tédio é, muitas vezes, medo de roupas confortáveis. O que realmente te aborrece raramente é o museu: é estar sozinho consigo mesmo.
Erro 1: seguir as expectativas
Se você vai ao seu encontro esperando “se divertir” ou “sentir-se inspirado”, você está sobrecarregando-a com uma exigência que a mata. As expectativas transformam uma exploração aberta em um exame que a realidade quase sempre falha.
A consulta funciona por curiosidade e não por expectativa. A diferença é enorme: a curiosidade pergunta 'o que vai estar aqui?'; a expectativa exige 'Tenho que gostar disso'. O primeiro está aberto à surpresa; o segundo só pode ficar desapontado.
O Ajuste: Vá sem um roteiro emocional. Não precisa ser divertido, revelador ou bonito. Só tem que ser seu e atencioso. Paradoxalmente, quando você abandona a exigência de desfrutar, o prazer aparece por si só.
Erro 2: tentar fazer algo ‘útil’
Esta é a sabotagem mais sutil. Você sai para o seu compromisso e, no caminho, pensa ‘já que vou sair, vou aproveitar para comprar X’ ou ‘vou numa exposição, mas algo que vai servir para o trabalho’. No momento em que a cotação tem função prática, ela deixa de ser cotação.
O cérebro adulto é treinado para justificar cada minuto com produtividade. O encontro com o artista é um ato deliberado de rebelião contra isso: o tempo gasto em algo que não serve para nada a não ser para nutri-lo. Essa “inutilidade” é precisamente o seu remédio.
O ajuste: escolha algo que não tenha utilidade. Se você puder justificar racionalmente, desconfie. O encontro perfeito é aquele em que, se alguém lhe perguntasse ‘porquê’, você só poderia responder ‘porque tive vontade de olhar’.
Erro 3: carregar seu celular
Um encontro com o celular no bolso, tocando ou te tentando, não é um encontro: é estar em outro lugar com o corpo presente. A atenção é o ingrediente ativo da prática, e o celular é o solvente universal da atenção.
Muitas pessoas descrevem seus encontros como chatos justamente porque, assim que surge um segundo de vazio – aquele vazio fértil onde nasce a criatividade – pegam o celular e o preenchem. O tédio nunca se torna algo porque não sobra espaço para ele.
O cenário: móvel no avião ou, melhor ainda, em casa. As primeiras vezes sem ele serão estranhas, até mesmo ansiosas. Aguentar. Do outro lado desse tédio inicial está exatamente o que você procura: presença, observação, ideias que surgem do silêncio.
Como redesenhar seu próximo compromisso
Com os três erros em mente, veja como construir um encontro que não te aborreça:
- Escolha por pura curiosidade. Que lugar ou atividade lhe dá a sensação de “o que estará lá?”? Isso, embora pareça bobo.
- Sem celular e sem acompanhantes. Sozinho e desconectado.
- Nenhum objetivo útil. Se servir a um propósito, mude-o.
- Ele chega com atitude de explorador, não de crítico. Observe, toque, cheire, pergunte-se coisas.
- Fique mais tempo do que você pensa. O tédio geralmente acaba depois de 20 a 30 minutos, justamente quando a maioria das pessoas desiste.
Se você está perdendo ideias novas, nosso post ideias para encontros com artistas e aquele de namoro com orçamento zero Estão cheios de opções que despertam curiosidade sem gastar.
Quando o tédio é uma informação valiosa
Há uma reviravolta final que muda tudo: às vezes o tédio num encontro é uma mensagem que vale a pena ouvir. Se você ficar entediado repetidamente, pergunte-se nas páginas matinais: do que tenho medo? O que eu teria medo de descobrir se realmente ficasse sozinho comigo mesmo?
Para muitas pessoas, o tédio é a primeira camada de uma cebola: por baixo dele está a inquietação, por baixo dele há tristeza ou saudade, e por baixo de tudo há um desejo criativo adiado. Permanecer no encontro por tempo suficiente para romper essas camadas é onde a mágica do método acontece.
Então, da próxima vez que um encontro te aborrecer, não o descarte: investigue. O tédio não é o fim do encontro. Em suma, pode ser o começo. E se a resistência vier antes mesmo de você sair, leia nosso post sobre resistência em marcar uma consulta.
Existe até uma prática deliberada que alguns seguidores do método adotam: o ‘encontro chato de propósito’. Consiste em ir a um local sem nenhum atrativo evidente – uma sala de espera, um banco em uma rotatória, um campo aberto – e ficar meia hora sem celular, sem livro, sem nada. No começo é desconfortável. Mas o cérebro, privado de estímulos, começa a gerar os seus próprios: ideias, memórias, conexões inesperadas. O tédio, bem sustentado, é uma fábrica de criatividade.
Portanto, aceite o tédio. Numa cultura que preenche todas as lacunas com telas, a capacidade de ficar entediado sem fugir é quase um superpoder criativo. A consulta com o artista treina você. O que inicialmente parecia ser o problema – “que chatice, não há nada de errado” – acaba por revelar-se, é claro, exatamente o ponto.
Se tudo isso parece exigente para você, relaxe: ninguém faz encontros perfeitos. Alguns serão seriamente chatos, alguns serão desconfortáveis e, de vez em quando, um deles deixará você sem fôlego. Essa variabilidade é normal e faz parte do processo. O importante não é que cada data seja memorável, mas que você continue saindo semana após semana. Com o tempo, a prática treina seus olhos e você descobre que fica cada vez menos difícil encontrar interesse naquilo que antes lhe parecia enfadonho. O tédio não vai embora: você aprende a superá-lo.