Uma feira livre é um excelente encontro com o artista porque concentra cor, som, cheiro e vida humana num espaço livre que muda a cada dia. O segredo é ir observar, não comprar: olhar as barracas como pinturas, os gestos dos vendedores como teatro, as texturas como museu. Alimente o olhar criativo sem gastar nada.
O mercado como museu gratuito
Um museu exibe objetos cuidadosamente selecionados para você ver. Um mercado faz a mesma coisa sem saber: pirâmides de laranjas, montanhas de especiarias de cores impossíveis, peixes prateados no gelo, tecidos pendurados, flores recém-colhidas, mãos que pesam e embrulham. Só o mercado é livre, muda todos os dias e está vivo.
Júlia Cameron pede que o encontro com o artista “encha o poço” de ricas impressões sensoriais. Poucos lugares oferecem mais por menos do que um mercado. O problema é que normalmente o atravessamos em modo de recados – lista na mão, pressa, olhando apenas o que vamos comprar – e perdemos o espetáculo. O encontro com o artista consiste em entrar com um olhar diferente.
A diferença: comprar versus procurar
Toda a transformação está no objetivo com o qual você entra. ir às compras É funcional: você procura tomate, compara preços, otimiza seu tempo, sai. Sua atenção é estreita, direcionada e eficiente. Você não vê o mercado; você vê sua lista.
vá olhar É o contrário: você entra sem lista, sem pressa e sem intenção de comprar nada. Sua atenção se abre. Começamos a ver o mercado como um pintor ou um fotógrafo o veriam: as gamas de cores da frutaria, a composição de uma peixaria, a luz que entra pelo armazém, a coreografia dos vendedores.
É exatamente a mesma diferença que separou a compra da navegação em a nomeação em sebos. O lugar importa menos do que o visual com que você entra. E procurar sem comprar também é grátis: cabe entre os agendamentos com o artista a custo zero.
O que observar (e como)
Para aguçar o olhar, é importante saber onde está escondida a riqueza visual de um mercado.
A cor. Veja como estão agrupados: o vermelho dos pimentões ao lado do verde da acelga, os amarelos dos temperos, os roxos das berinjelas. Composições que nenhum designer planejou.
As texturas. A aspereza de um abacaxi, o brilho de um peixe, o aveludado de um pêssego, a aspereza de um saco de legumes.
Os gestos e os rostos. O mercado é teatro. Observe como um vendedor embrulha, como um cliente pechincha, como os clientes habituais se cumprimentam. Vidas inteiras em trinta segundos.
Os sons e cheiros. A proclamação, o gelo caindo, o café do bar dos fundos; o cheiro de peixe, flores, frutas maduras, pão. É uma nomeação sensorial completa, como a de os cinco sentidos.
O desconhecido. A barraca do produto que você não sabe o que é, o vegetal de um país distante, a erva que você não reconhece. Pare e pergunte-se o que será.
Como navegar: regras de consulta
Para marcar uma consulta e não uma mensagem, algumas orientações simples.
Sem lista e sem sacola de compras. Se você carregar a sacola, cairá na compra. Vá com as mãos livres.
Lentamente e duas voltas. Reserve pelo menos uma hora. Faça uma primeira volta completa antes de parar em qualquer coisa e uma segunda parando onde algo o chamou.
Sem celular (ou quase). Melhor sem câmera: fotografar afasta o olhar. Na verdade, uma foto no final, não durante. A ideia é ver com os olhos e não através da tela.
Apenas. Como todo encontro com o artista, sozinho. Acompanhado você volta à conversa e para de observar.
Permita-se um pequeno mimo. Mesmo que você não vá comprar, um café no bar ou uma fruta que você nunca provou não quebra a data: completa. A regra é que seja por prazer, não por abastecimento.
Mercados essenciais na Espanha e na América Latina
Se você quer destinos para seus encontros, aqui estão alguns que são especialmente deliciosos para os olhos. Em Espanha: La Boqueria e Sant Antoni em Barcelona, o Mercado Cebada e o Rastro em Madrid, o Mercado Central de Valência (modernista e espetacular), o Mercado Triana em Sevilha, La Bretxa em San Sebastián. Especificamente para Barcelona, esta citação se cruza com a nossa cantos criativos de Barcelona.
En América latina: o Mercado de San Juan e la Merced na Cidade do México, o Mercado de San Telmo em Buenos Aires, o Mercado Central em Santiago do Chile, os mercados de flores e o Paloquemao em Bogotá, o Mercado de Surquillo em Lima, o Mercado del Puerto em Montevidéu.
Mas, assim como acontece com as livrarias, você não precisa de um mercado famoso. O mercado semanal do seu bairro, o mercado de alimentos da sua cidade ou um mercado de segunda mão em qualquer domingo têm toda a riqueza que você precisa. O melhor encontro é aquele que você tem a quinze minutos de casa. E se preferir olhar para o campo aberto, complemente com o encontro com o artista nas montanhas.
O mercado como treinamento oftalmológico, não como destino
Há um benefício para o mercado que vai além de uma tarde agradável: treine a maneira como você olha para o resto da semana. Quando você passa um encontro olhando um mercado como se fosse um museu, você ensina seu olhar a encontrar composição, cor e vida onde normalmente só vê rotina. E esse olhar treinado não se apaga na hora de sair do mercado.
Quem pratica esse olhar começa a notá-lo na fila do supermercado, no ônibus, no muro descascado da sua própria rua. O mundo cotidiano, que antes era um fundo cinza, torna-se fonte de estímulos. Isso é, em sua essência, o que toda a prática de Cameron busca: não precisar de viagens exóticas ou museus caros para nutrir a criatividade, mas sim redescobrir o extraordinário naquilo que já está à sua frente.
O mercado é apenas o campo de treinamento mais generoso para esse aprendizado, pois concentra muitos estímulos em um espaço pequeno e a custo zero. Mas o objetivo é portátil: que você saia de lá olhando tudo – seu bairro, sua casa, sua vida – com esses mesmos olhos despertos. Essa é a verdadeira colheita da citação.