Todos nós temos isso. Aquela voz que diz “isso não basta”, “quem você pensa que é”, “é melhor não mostrar para ninguém”. Julia Cameron chama isso de censor e é o maior obstáculo entre você e sua vida criativa. Não porque ele seja forte, mas porque é invisível.

A censura não grita. Sussurrar. Está disfarçado de bom senso, prudência, realismo. Diz que você não está pronto, que vai tentar mais tarde, que tem gente que faz isso muito melhor. E o mais perigoso: ele te conta com sua própria voz, então você acredita nele.

En O Caminho do Artista, Cameron passa páginas inteiras descrevendo essa figura porque entende algo fundamental: você não pode derrotar um inimigo que você não vê. O primeiro passo para recuperar a criatividade não é estar inspirado, nem ter ideias brilhantes, nem encontrar tempo. É identificar o censor e começar a ignorar a sua opinião.

Como funciona a censura

A censura opera de maneira previsível. Ele tem um repertório limitado de argumentos, mas os repete com tanta insistência que acabam parecendo verdades. Suas táticas mais comuns são três:

1. A comparação

“Olha fulano de tal, ele realmente sabe.” A censura constantemente compara você a pessoas que trabalham em sua arte há anos, como se sua primeira tentativa tivesse que competir com sua obra-prima. A comparação é o veneno mais rápido contra a criatividade, porque transforma o ato de criar em uma competição que você perde antes de começar.

2. Adiamento disfarçado de prudência

“Ainda não é hora.” "Primeiro preciso aprender mais." "Quando eu realmente tiver tempo, então sim." A censura não diz para você nunca fazer isso – isso seria óbvio demais. Ele diz para você não fazer isso agora. E amanhã ele diz a mesma coisa novamente.

3. Desqualificação antecipada

«Por que, se ninguém vai ler?» "Isso já está feito." "Você não é original." A censura julga o resultado antes que ele exista. Pede que você garanta o sucesso antes de dar o primeiro passo, o que é impossível por definição.

"Perfeccionismo não tem nada a ver com fazer bem. Tem a ver com o medo de não fazer bem o suficiente."

—Júlia Cameron

De onde vem

O censor não nasce com você. É construído a cada vez que alguém te disse “isso não tem futuro”, a cada professor que corrigiu cruelmente, a cada familiar que mudou de assunto quando você estava falando sobre o que queria fazer. É uma coleção de vozes externas que foram tão internalizadas que já parecem as suas.

Cameron insiste que não é necessário fazer terapia para desativar a censura, embora nunca seja demais. O que é necessário é reconheça isso como algo separado de você. Você não é seu censor. Você é a pessoa que acredita apesar dele.

Como remover o microfone

Estratégia 01

Dê um nome

Parece absurdo, mas funciona. Dê um nome ao censor – algo ridículo, se possível. Ao ouvir isso, em vez de dizer “Acho que não estou bem”, você pode dizer “lá está o Paco de novo com seu discurso”. Nomear é distanciar.

Estratégia 02

Escreva nas páginas da manhã

Quando o censor falar, transcreva literalmente em suas páginas. "Você não é bom para isso." "Isso é ridículo." Vendo isso no papel, ele perde força. O que é assustador na cabeça torna-se patético na escrita.

Estratégia 03

Acredite de qualquer maneira

Não espere a censura calar a boca para criar. Crie com ele conversando. Escreva com sua voz em segundo plano. Pinte enquanto diz que é horrível. A criatividade não requer silêncio interior: requer ação apesar do barulho.

Estratégia 04

Proibi-lo de comentar rascunhos

O censor está proibido de falar enquanto você estiver no modo de criação. Você pode comentar mais tarde, na fase de edição — se quiser ouvir. Mas enquanto o primeiro rascunho estiver em andamento, este é um território sagrado.

"Não deixe que o medo da imperfeição o impeça de começar. Começa mal. Começa feio. Mas comece."

A censura nunca desaparece completamente

Essa é a parte que ninguém te conta: a censura não sai. Não há um momento em que você acorda e não ouve mais. O que muda é o seu relacionamento com ele. Você aprende a ouvir sem obedecê-lo. Você aprende a criar com sua presença, assim como aprende a correr contra o vento.

Os artistas mais prolíficos não são aqueles destemidos. São eles que aprendi a não deixar o medo ter a última palavra. E isso é treinado. É treinado com as páginas matinais, com a citação do artista, com cada pequeno ato de criação que você faz apesar da voz que lhe diz para não fazê-lo.

Hoje, ao ouvir a censura, cumprimente-o. E continue escrevendo.

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