“Não sei o que quero fazer” é uma das frases mais repetidas por quem começa a recuperar a criatividade. Cameron responde com uma ideia libertadora: Você não precisa saber disso; você tem que investigar isso. O desejo não está perdido, está enterrado. E como tudo que está enterrado, deixa pistas na superfície. Seu trabalho é segui-los como um detetive segue um caso.
Por que você tem que detectar e não decidir
O bloqueio criativo geralmente vem de ter encoberto desejos durante anos. Disseram-nos que a arte não era prática, que a escrita não fornecia alimento, que já éramos velhos demais para começar. Então enterramos o desejo tão profundamente que deixamos de ouvi-lo. Quando alguém nos pergunta “o que você quer criar?”, respondemos honestamente: “Não sei”. Mas não é que não haja desejo; a coisa é perdemos o acesso a ele.
É por isso que Cameron não nos pede para decidirmos a nossa vocação da noite para o dia. Isso só aumenta a pressão sobre um artista já assustado. Pede-nos algo muito mais gentil: recolher pistas, sem julgá-las, até que o padrão se revele. A detecção substitui a decisão.
As pistas que um detetive criativo segue
Existem vários tipos de sinais especialmente reveladores:
A inveja. Cameron tem uma frase famosa: a inveja é um mapa. Quando você sente uma pontada de inveja de alguém, você não está sendo uma pessoa má; Você está recebendo informações valiosas. Essa inveja lhe diz exatamente o que você gostaria de fazer. Você inveja quem publica livros, quem expõe, quem canta em público? Aí está o seu desejo, disfarçado de desconforto.
O entusiasmo. Que assuntos fazem você falar sem parar? Que atividades fazem você perder a noção do tempo? O entusiasmo é pura energia do artista interior; siga seu rastro.
Memórias de infância. O que você fazia quando criança quando ninguém estava olhando? As horas desenhando, inventando histórias, montando teatros, colecionando. A criança que você era sabia do que gostava antes que o mundo o corrigisse.
As alegrias proibidas. Aquelas coisas que você sempre quis fazer, mas descartou como frívolas ou impossíveis. Cada um é uma pista marcada em vermelho.
"A inveja é um mapa. Ela nos diz o que queremos. Transforma esse desconforto em informação: o que aquela pessoa tem que você deseja para si?"
Parafraseado de Júlia Cameron, The Artist's WayA ferramenta estrela: frases incompletas
O método de detetive mais específico de Cameron é frases incompletas. Consiste em completar a toda velocidade, sem pensar, frases como estas:
- Se não fosse tarde demais, eu...
- Quando criança eu adorava...
- Se eu tivesse mais coragem, tentaria...
- Se eu não tivesse que ser perfeito, eu escreveria/pintaria/faria...
- Secretamente, eu sempre quis...
- Se eu tivesse cinco vidas, uma delas seria...
A chave é responder rapidamente, sem censura. A velocidade supera o crítico interior, que precisa de tempo para inventar objeções. As respostas que surgem assim, quase aos trancos e barrancos, costumam ser as mais honestas. São as pistas mais limpas do caso.
O páginas matinais Eles são o caderno natural do detetive. Ao escrever sem filtro todas as manhãs, desejos enterrados vêm à tona por conta própria, muitas vezes em meio a reclamações e listas de compras. É por isso que é uma boa ideia reler as páginas de vez em quando: elas são o seu arquivo de pistas.
Arqueologia criativa: escavando o passado
Outra técnica de detetive é o que poderíamos chamar arqueologia criativa: reveja sua própria história procurando os momentos em que a criatividade se extinguiu. Quando você parou de desenhar? Quem disse o quê? Em qual curso você se convenceu de que “não servia” para alguma coisa? Identificar essas cenas não é regozijar-se com a ferida, mas recuperar o que foi interrompido. Muitas vezes, o desejo que você enterrou ainda está intacto exatamente onde você o deixou.
Este trabalho se conecta com o de descobrir seu idade artística: O momento em que seu artista interior ficou preso geralmente é também o momento em que você enterrou um desejo específico. O detetive e a idade artística trabalham no mesmo caso sob dois ângulos.
O detetive na frente do juiz interno
Há uma razão profunda pela qual Cameron propõe a figura do detetive e não a do juiz. O juiz interno – aquele crítico que existe em todos nós – pergunta “isso é bom?”, “vale a pena?”, “isso não é ridículo?” Essas perguntas matam as pistas antes que possam ser seguidas. O detetive, por outro lado, não julga: apenas colete evidências. Ele não se importa se uma pista parece boba ou impraticável; Ele anota mesmo assim, porque o trabalho dele não é avaliar, é investigar.
Adotar a mentalidade do detetive incapacita o juiz apenas o tempo suficiente para que desejos enterrados venham à tona. Por isso a atitude de curiosidade neutra é tão importante: “que interessante que invejo aquela pessoa”, “que curioso que quando criança eu adorava isso”. Sem veredictos, sem sentenças. A criatividade é tímida e foge da quadra; Em vez disso, ela se aproxima quando um olhar curioso sobre ela que só quer entender. Torne-se um bom investigador de si mesmo e verá quantas pistas esperam há anos que alguém as recolha sem condená-las.
O que fazer com as pistas que você coleta
Você não precisa agir em todos eles de uma vez. O detetive primeiro reúne e depois decide. Quando você tiver uma lista de pistas (invejas, entusiasmos, lembranças, frases completas), procure padrões repetidos. Se a escrita aparecer em cinco faixas diferentes, há um endereço ali. Se a música insiste, ouça.
Então dê um pequeno passo, não um passo heróico. UM encontro com o artista relacionado à pista. Uma aula de teste. Um material comprado. A detecção não termina num relatório: termina numa experiência mínima que confirma ou descarta a pista. E assim, passo a passo, o caso se resolve: você descobre o que seu artista quer criar não porque você decidiu de repente, mas porque seguiu as pistas até o fim.